quarta-feira, julho 06, 2005

Jardim da Parada, dia de sol, crianças anjos à solta, correm, deitam-se nas cordas como ao sol, sobem, trepam, pulam, correm.
Imagem perfeita da vida em seu anelar. É amor por todo o lado, imagem do tempo de férias, imagem do paraíso na terra, aqui em nós, à volta de nós e nós dentro dele, nas vezes em que ele assim se faz. Eu para as minhas amigas que comigo caminham, é em dias assim que se vê o coração pelos olhos dentro do coração, que se vê como a vida é feliz, como ela é felicidade, como está toda talhada para ela e por ela, como o mundo poderia ser todos os dias. Os mais crescidos jogam em magotes às cartas em seu vagares, vão entretendo o tempo em seus afectos, suas amizades, seu jogar das conversas como quem bate um às em cima do tampo da mesa. Os adultos com quem me cruzei, com quem falei, com quem connosco falaram eram naquele instante preciso amor, eram naquele preciso instante o dócil, brincalhão e alegre espírito, aquele que é alegria que contagia, eram o amor às crianças que são os filhos, os nossos filhos, todos iguais, todos diferentes, de todas as cores, num mesmo imenso amor.

Bebés, crianças pequenas, pais, mães, avós, arvores, pássaros, o sol e a luz e o calor, imagem da humanidade em paz.
Todos os rostos que vi à excepção de dois eram expressões do Belo, do Bom Belo, porque há por vezes outro Belo que não é tão belo, se pensarmos a vida, toda inteira como Belo.

Uma Senhora que comigo pela face se cruzou e que me disse, compre-me estes pensos, que não tenho que comer.
Peguei as moedas, as últimas que tinha naquele instante e dei-las dizendo, fique com os pensos que eu não preciso deles e depois fiquei a pensar quão estranho fora minha frase, pois pensos precisam-se muitos, há muito, ferido no mundo e em meu coração, um mesmo que o teu, um mesmo coração humano, da mesma exacta cor, vermelho como seiva que nele corre, quando os homens o ajudam a correr em vez de o ceifarem. Uma mesma cor que bate por dentro de cores por fora diferentes.

E quando vou neste pensar dou de caras com Maria da Fonte, pistolas na mão, que me fala da coragem, da coragem das mulheres, muitas das vezes maiores que a dos homens, outras não, de pistolas num tempo de pistolas que infelizmente continua ainda a ser muitas das vezes a regra dos dias de hoje.

No outro lado do mesmo único mundo as faces das crianças são de anjos também. Mas de anjos tristes e magoados num mundo que tem o conhecer, o saber e os meios para as curar.

Seus corações são exactamente iguais aos nossos, suas caras iguais à dos nossos filhos, com os mesmos olhos, sem a mesma alegre expressão e risos nas bocas.

Falam e dizem assim. Vejam-nas e escutem num breve extracto do documentário Orphans of Nkandla.

http://www.live8live.com/videos/index.shtml

Será que já passou na televisão pública ou outra?


Vejam também o spot de promoção do evento LIVE8 com as Estrelas Mundiais do Cinema e da Música. Cada um a estalar os dedos de três em três segundos.

Depois vai em silêncio ao espelho da tua casa levanta a mão à altura da face reflectida no espelho de ti mesmo, estala os dedos e atenta no som, cavo, breve, rápido, rápido, como a vida de uma criança quando se vai. Olha ao instante a tua face e percebe o que sentes quando o fazes.

De cada três em três, vai-se neste preciso instante um e pensa que enquanto o fazes e se mais nada fizeres, continuará assim.

Edimburgo, amada, cidade conhecida e reconhecida, que todos os que lá estão e nestes dias lá cheguem saibam que as cores dos corações é uma mesma e que agirão em conformidade, falando a língua do coração, o amor, os olhos da compaixão, o agir do ajudar, a todos inspire.


Ajuda, perdão da dívida e comércio justo. Ajuda no debelar da fome, da miséria, das epidemias, na educação.

Na televisão as já habituais escaramuças entre os manifestantes a quem se chamam anti globalização e a policia, num velho jogo que se eterniza e que não serve para nada, pois não se trata de um jogo de futebol, no qual ao fim do tempo regulamentar uma das equipes geralmente ganha ou ambas empatam. Aqui magoam-se seres, de ambos os lados, pois manifestantes e policias são todos homens.

Não vale a pena o confronto, pois em termos pragmáticos não resolve os problemas, ganhe quem ganhar na refrega do momento, que será sempre mais uma refrega e depois tem inconveniente acrescido, mistura a solução com o problema, pois a questão básica é ajudar ou não e no não reside também, o confronto, a via da violência, das guerras que por sua vez fundam e alimentam as misérias humanas. Não há ponto no meio desta ponte onde estar, em meu ver, ou se está de um lado ou de outro.

Depois a violência, gera insegurança e a insegurança desperta no homem o galo que se mostra galo ao cantar de galo para afirmar sua força seu poder, seu poderio, uma força que o galo sempre tem, mais equilibrada, mais eficaz quando não se afirma à custa de outro, contra outro, quando não é levado a demonstrá-la.

Por outro dizer o medo leva ao exagero da resposta e uma resposta assustada é geralmente meio caminho andado para uma resposta exagerada, e os exageros levam a que por vezes se perca as estribeiras, o que de pior há para quem quer conduzir em ajuda, pois cavaleiro e cavalo em relação são sempre de certa forma um mesmo, um influencia o outro e vive versa.

Ajuda acontece na paz em paz, ajuda nasce em ambientes calmos onde os seres se sentem tranquilos, sem ameaças, em Amor, Amante.





Daqui da minha janela convido todo o mundo que em vez de reencontros e refregas que magoam ou podem magoar, que todos que estão e são pela ajuda, os que ajudam, que estalem os dedos, usem aquelas rãs de metal que faz um som semelhante, reco-recos e outros que tais, e que durante a cimeira no meio de cada dia e à hora de jantar, os façam num mesmo tempo estalar, como um som de uma tempestade global e redonda à medida do homem, do mundo de gafanhotos, só que desta vez de gafanhotos de amor, como sua irmãs borboletas.

Eu por mim os estalarei ao meio-dia e às oito horas da noite, em compasso de três por três, por três minutos em cada vez, conta, conto e canto da humanidade e do humano.

No Jardim da Parada, no meio da tarde, no meio da vida, naquela pequena grande imagem do paraíso aqui, também é possível aqui, que se vive aqui.

A menina de vestido branco, flores e bandolete em seus cabelos doiro, sua face, seus gestos, sua expressão e seu andar todo paz, beleza imensa e toda pura em seu enleio, ela estava.

E eu a vê-la entristeci, doeu-me no coração por cima de uma recente cicatriz. E meus olhos se tornaram aquosos contidos.

Meu filho deveria estar comigo desde segunda-feira e não estava. Se estivesse, estaríamos os dois ali, no meio de tantos outros, com uma amiguinha dele que eu sei ele gostar. Meu filho fica como todos os filhos, feliz à solta num dia de sol e calor, a brincar, a correr a pular com outros meninos por companhia, uns dia mais sociável, outros em que jogamos mais entre nós, às escondidas, ao correr e procurar, ao agarrar e largar.





Segunda-feira de manhã recebo um telefonema de minha Mãe que me diz, não precisas de vir para cá, o Francisco não vem para cá.
Como, perguntei enquanto o coração se contraiu.

Telefonou a pai da Teresa a dizer que afinal não vinha entregar o Francisco, que ela assim tinha decidido, de não o fazer, e que lhe pedira a ele a incumbência de avisar.

Já estava à espera, os sinais de que algo se ia passar no seu actuar já se vinham avolumando num mesmo sentido, o sentido do acontecer.

Releembra os mais recentes. 6fº passada, ela telefonara a dizer que o ia entregar em casa dos meus pais na segunda de manhã, para ele passar comigo esta semana, combinado que vinha de trás, pratica de divisão do tempo em seu verdadeiro meio com os dois pais e que recentemente fora alvo de ajustes, com mediação especializada de permeio.

Domingo telefonara à hora de jantar como fazia habitualmente desde que se separara a família, para falar com seu filho.

A Teresa disse-me olá, estou a jantar com o meu amigo Zé Miguel e que tinha deixado o Francisco em casa dos seus pais, que não me estava a ouvir bem e que depois falava para combinar as coisas.

Uma campainha tocou dentro de si depois de desligar, uma conexão com uma frase que ela dissera na consulta quando pediu até 6ª feira para reflectir sobre a solução que a psiquiatra propusera e que ele no momento logo aceitara… deixara ela cair, …tenho que me consultar com umas pessoas e eu a ficar a pensar que pessoas

Ligo ao Francisco.

Está querido
Sim, em voz sumidinha e triste
(Basta a um pai ou a uma mãe atentos e conhecedores, uma só sílaba para saber como seu filho se sente, pois o tom traduz o que se está a sentir)
Então o que se passa, estás triste
Um sim mastigado, que quase não o era
Francisco, porque é que estás a falar assim
Dessa maneira, só por sim o pai não percebe o que se está a passar e não pode bem ajudar
Não te sentes à vontade para falar
Mais um sim arrastado…
O pai falou com a mãe, ela está a jantar com um amigo e depois vem te buscar, é só um bocadinho de tempo, vá lá, não fiques triste, não é razão para isso, tu és um menino corajoso.


Desligamos, tendo ele ficado um pouco mais animado.

Segunda-feira depois de saber pelo telefone que a Teresa tinha rompido o combinado, recebi dela às 13.59 uma mensagem que dizia, Paulo, gostava de chegar acordo contigo. Se não falarmos calmamente, não vejo como.

Depois do almoço fui visitar o Francisco. Toquei à campainha no telefone do átrio que se encontra meio avariado, com um permanente ruído de fundo, no qual me pareceu ouvir o atender na outra extremidade. Anunciei-me e fez-se um silêncio maior do que o normal. Tornei a tocar, mais um tempo de espera, e depois a porta se abriu.

Entro na sala de estar e no primeiro instante quase não reconheço o meu filho. Estava sentado no meio do sofá com uma prancheta sobre as pernas esticadas, corpo, parado, demasiado parado, cara mergulhada e fechada ao meu olhar que chegava. Não era normal, esta sua reacção, ela é geralmente mais viva e alegre quando eu chego.

Quase não o reconheci, porque estava vestido de uma forma pouco habitual para uma segunda-feira. Calções azuis de fazenda abaixo dos joelhos, para se sujarem, meias e sapatos na mesma cor, uma camisa azul aos quadrados, roupa formal, mais a mais em férias, onde em meu ver, se querem outras roupas, outro vestir pois é tempo de os meninos andarem à solta, como eles gostam, a brincar, e brincar suja, e as roupas devem ser uma espécie de via verde para esse efeito, o que geralmente não as faz corresponder às dos domingos, festas e outras datas que tais.



Tudo isto se passara ainda durante a minha aproximação, comprimento a mãe da Teresa que está em pé e volto-me para o Francisco que continuava com a cara a olhar para baixo, que me revelava uma grande tensão em seu ser.

Comecei a falar-lhe. Olá Francisco, e sua cara finalmente se levantou, abrindo-se num radiante sorriso, até que seus olhos se cruzaram com a avó e o tio, tornou a baixar a cara. Com os dois em minha retaguarda porque assim se colocaram no espaço, aproximei-me do Francisco e disse-lhe, vamos beber um café lá baixo e virando-me para a avó acrescentei, voltamos daqui a um quarto de hora. Francisco não reagiu, mantendo a cabeça para baixo, não me olhando nos olhos como eu fazia a falar com ele.

Depois vi-o a ganhar coragem, levantou seu olhar e disse-me que não podia, eu estupefacto com aquele seu dizer e logo a avó e o tio a dizer que não, eu a declarar pela minha palavra de honra que o trazia, que só ia tomar com ele um café, e que o traria de novo de volta.

Meu Deus, disse para mim mesmo, meteram-lhe palavras na boca dele, nunca o Francisco se recusou a ir comigo onde quer que fosse, o Povo de Lisboa é minha testemunha, pois quando estamos juntos, andamos no mundo, e as pessoas vem a relação que temos, que é de amor, de mutuo amor.

Não podia, porque não devia, porque não era bom para ele, insistir, e assim virei a conversa para a avó, e porque é que não me deixa sair com o meu filho, que não que ele estava à sua guarda e que a sua filha não o permitia.

Pedi-lhe então que nos deixassem sozinhos na sala, resposta de novo negativa uníssona, tão perfeita e rápida, que revelava, que todas as hipóteses tinham sido estudadas, previsto as possibilidades do meu comportamento.

Disse-lhe ainda com que direito se julga, que direito se arroga ter para impedir que um pai esteja com seu filho na forma que entende e percebi que mais não havia ali a fazer, pois a minha fronteira é clara, primeiro proteger o Francisco, em segundo, nunca em violência.

Despedi-me de meu filho dizendo-lhe que o pai não podia ficar mais tempo agora ali e que depois falaria com ele, que não se preocupasse, que as coisas iriam correr todas bem. Ainda a sair e a avó a dizer, o Paulo só agora é que é pai. Respondi-lhe metade, que pai é sempre pai e calei a outra metade, que não é para ser dito na presença dele. Que comentário, o que meu filho ouviu, sua avó que diz, que seu pai, só agora é pai.

No elevador, à medida que descia os andares, descia eu, descia sobre mim, dentro de mim, um manto de tristeza. Um semelhante ao que sinto agora neste ponto da escrita ao ouvir no ver do meu imaginar a encenação que foi feita no maior tempo do que habitual que marcou a minha entrada. A avó, antes de eu entrar, Francisco, já sabes o que está combinado, agora tens que te portar à altura e meu filho a tentar dar o seu melhor.

Saí para a rua e lembrei-me de um episódio recente já depois da separação. Num sábado a Avó caíra numas escadas e fizera uma fractura na bacia. Fora lá casa vê-la no domingo e enquanto ia no caminho, recordava-se de tudo o que por ela sentia. Sabia que ela nunca gostara dele, que achava que não era o homem para a sua filha e sabia também que de certa forma, existiam traços de personalidade e alguns feitios bastante próximos. Pesava tudo isto e tentava limpar o seu coração antes de lá chegar, tentava por o seu coração a emitir amor, só amor, porque só ele tem poderes curativos. Estendeu-lhe a mão, ela em seu leito a ela se agarrou no momento, ele desejou com toda a sua força, em plena e total imersão de amor, para além e aquém de qualquer julgamento, que a sua energia para ela passasse, que a ajudasse à cura, que o Amor curasse. Quando quis retirar a sua mão, ela não deixou, ficou a agarrá-la e ele a deixou, pelo tempo dela. Estranhas as pessoas e seus agires.



Fui falar com a Teresa. Depois fui a uma esquadra da polícia fazer um depoimento sobre a impossibilidade de estar com o meu filho nas condições que queria.

Dizia o simpático e diligente policia que me atendeu, no final, sabe, isto assim não tem muito valor, confirmando o que eu também sabia e acrescentou, para a próxima se a houver, é melhor chamar o 112 quando a situação está acontecer. Fiquei apensar que também não é tão líquido como isso, uma criança de cinco anos já tem uma noção da polícia, do que é para que serve, não me parece cauteloso envolve-la numa situação assim.

E tudo isto se passa num país em que os tribunais de família fecham durante as férias e a pergunta que fica pois este tipo de questões tem que ter respostas imediatas, pois é de crianças, dos seus direitos e bem-estar que se em primeira instância se trata.

Que as crianças são seres menos preparados que os adultos para se defenderem e como tal cabe aos adultos velarem pela sua protecção, garantir que essa incapacidade, esse estar em desvantagem face aos adultos, que lhe vem da sua própria natureza não se vire nunca contra elas, não lhes seja nunca prejudicial.

Uma sociedade cujos mecanismos que possui para lidar com estas problemáticas não dá a resposta mais adequada, e a infeliz prova disto, são alguns dos casos que recentemente se passaram, para além da axiomática questão dos raptos, que já abordei numa outra altura.

Numa sociedade que privilegia ainda pela jurisprudência maioritariamente as mulheres, o que traduz na prática uma desigualdade de direitos entre a mãe e o pai e que esta situação prejudica e fere também os direitos dos próprios filhos, pois pais já foram filhos e os filhos se tornam pais, é tudo um mesmo.


Num mundo em que as leis de adopção dos diferentes países não se entendem como imensa torre de babel, que as dificulta.

Num mundo onde milhões de crianças necessitam de adopção, que tem que ser rápidas e seguras, durante o tempo em que as crianças são ainda crianças.

Que projectos podem unir os europeus, os homens do mundo?

Talvez proteger melhor as crianças, talvez ser paladinos do entendimento das leis à escala global, para que se possa adoptar à séria, dar uma família a quem a deixou de ter, pois se é verdade que todas as crianças e os pais são feitos para viverem uns com os outros, muitas há que com eles não vivem, porque não os tem.

Ou o nosso ajudar não chegará ai, não chegará a tanto?
Que cada um meça seu coração.

Os homens são de todas as cores, as crianças sempre crianças e os pais sempre pais.


Semana da mãe, semana do pai? A mãe está a trabalhar com horários definidos. Hoje à noite falando com ele ao telefone, disse-me que tinha ido com o tio ao cinema. Que é isto, que formas de arranjar as coisas são estas, estando o pai disponível, mas isto é toda uma outra longa história.

Paulo forte

Texto escrito entre as 16h de dia 5 e as 8 h do dia seis e nessa hora publicado.